Sustentabilidade

Biocombustíveis não tiram espaço da produção de alimentos, aponta pesquisadora da USP

Estudo liderado por pesquisadora da USP mostra que biocombustíveis podem crescer sem comprometer a oferta de alimentos e ainda gerar renda e sustentabilidade no campo.

05 de julho de 2026 4 min de leitura
Biocombustíveis não tiram espaço da produção de alimentos, aponta pesquisadora da USP

A produção de biocombustíveis pode crescer sem reduzir a oferta de alimentos e sem pressionar o desmatamento, afirma a pesquisadora Glaucia Mendes Souza, da USP e da IEA Bioenergy.[1][5] A conclusão se apoia em meta-análises internacionais e em relatórios que indicam possibilidade de ampliar simultaneamente bioenergia, produtividade agrícola e segurança alimentar.[1][2]

O que aconteceu

Em entrevista e em estudos recentes, Glaucia, que lidera a Força-Tarefa de Biocombustíveis para a Descarbonização do Transporte na IEA Bioenergy, contestou a narrativa clássica do “food versus fuel”.[1][5] Segundo ela, a ideia de que biocombustíveis concorrem diretamente com alimentos é ultrapassada e não se sustenta nos dados disponíveis.[1]

Uma meta-análise internacional que avaliou 224 artigos científicos concluiu que não há correlação estatística entre a produção de biocombustíveis – usando culturas comestíveis ou não comestíveis – e a segurança alimentar global.[1] Em muitos casos, a expansão da bioenergia vem acompanhada de ganhos de produtividade, uso de resíduos agrícolas e recuperação de áreas degradadas, reduzindo pressão por novas áreas.[2][5]

A pesquisadora destaca que o Brasil é um dos exemplos de compatibilização entre produção de alimentos, biocombustíveis e conservação ambiental, com a cadeia da cana-de-açúcar produzindo açúcar, etanol e energia elétrica a partir do bagaço e da palha.[2][5] O país também tem forte produção de biodiesel a partir de óleo de soja e outras oleaginosas, integrando agricultura, indústria e metas de descarbonização.[5]

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Por que importa para o agro

Para o produtor, a mensagem central é que a agenda de descarbonização abre espaço para novas fontes de renda sem reduzir o potencial de produção de grãos, fibras e proteínas.[2][5] Sistemas integrados, uso de resíduos e rotação de culturas permitem gerar biomassa para energia sem competir com a lavoura principal.

No mercado, a expansão de mandatos de mistura de etanol e biodiesel em combustíveis fósseis, aliada a programas como RenovaBio, tende a manter a demanda por biomassa agrícola.[5] Isso fortalece cadeias já consolidadas, como cana e soja, e cria oportunidades para culturas energéticas e para agroindústrias que aproveitam coprodutos hoje subutilizados.[2]

Dados e contexto

  • Estudo internacional com 224 artigos científicos não encontrou relação consistente entre biocombustíveis e piora da segurança alimentar.[1]
  • Relatório “Reconciling Food Security and Bioenergy” indica que a área disponível não é fator limitante para produzir simultaneamente alimentos e bioenergia em escala global.[2]
  • O documento recomenda uso de resíduos agrícolas, culturas flexíveis e sistemas de produção com uso múltiplo (alimento + energia).[2]
  • No Brasil, a cana-de-açúcar gera açúcar, etanol e eletricidade a partir do bagaço e da palha, exemplo de coprodução de alimentos e energia renovável.[2][5]
  • A pesquisadora afirma que, em países em desenvolvimento, o efeito dos biocombustíveis sobre preços de alimentos tende a ser neutro ou até positivo, ao melhorar renda e acesso ao alimento.[1]
FatorSituação com biocombustíveis bem planejados

| Oferta de alimentos | Mantida ou ampliada com aumento de produtividade e uso de áreas já abertas[2][5] | | Uso da terra | Mais eficiente, com integração de culturas, resíduos e coprodutos[2] | | Renda no campo | Diversificação de fontes (grãos, energia, coprodutos)[2][5] | | Emissões de carbono | Redução em relação a combustíveis fósseis[2][5] |

O que observar daqui pra frente

Produtores e agentes da cadeia devem acompanhar políticas de descarbonização do transporte, metas de mistura de etanol e biodiesel e incentivos ao uso de resíduos agrícolas como fonte de biomassa.[2][5] Projetos que integrem produção de alimentos, bioenergia e recuperação de áreas degradadas tendem a ganhar espaço, favorecendo quem investir cedo em eficiência, rastreabilidade e sistemas de uso múltiplo da terra.

Fontes

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