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Câmara avança em proposta que proíbe cálculo ‘por dentro’ de tributos

Comissão da Câmara aprova proibição do cálculo ‘por dentro’ de tributos, mudança que pode reduzir carga de impostos embutidos nos preços pagos pelo agro.

22 de maio de 2026 4 min de leitura
Câmara avança em proposta que proíbe cálculo ‘por dentro’ de tributos

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou proposta que proíbe o chamado cálculo “por dentro” de tributos, prática em que o imposto incide sobre si mesmo. A mudança pode reduzir a carga tributária efetiva em produtos e serviços, com impacto direto nos custos do agronegócio, especialmente em combustíveis, energia e insumos.

O que aconteceu

A CCJ aprovou proposta de emenda à Constituição que veda a inclusão do valor do próprio tributo em sua base de cálculo. Hoje, em diversos casos, o imposto é calculado sobre um preço que já inclui outros tributos, gerando efeito de “imposto sobre imposto”.

O texto ainda precisa passar pelo plenário da Câmara e, depois, pelo Senado. A proposta altera a sistemática de cobrança principalmente de tributos como ICMS, PIS/Cofins e outros que, em várias operações, são embutidos no preço final. Se a mudança avançar, o cálculo passará a ser “por fora”, deixando mais transparente quanto o consumidor paga de imposto.

Para estados e União, a mudança pode significar queda de arrecadação em alguns segmentos. Para empresas e consumidores, a tendência é de menor carga efetiva em produtos que hoje concentram tributos em cascata, como combustíveis, energia elétrica, telefonia e cadeias com muitos elos, caso típico do agro.

Por que importa para o agro

O agronegócio é fortemente dependente de itens com alta carga tributária embutida, como diesel, energia, fertilizantes, defensivos e transporte. A proibição do cálculo “por dentro” tende a reduzir o peso de impostos em cada etapa da cadeia, do insumo à indústria, e disso até o varejo. Menos imposto em cascata significa espaço para custos menores ou margens ligeiramente melhores.

Há reflexos também na competitividade externa. Com custo tributário menor em insumos e logística, o produtor brasileiro pode ganhar vantagem frente a concorrentes como Estados Unidos e Argentina, onde parte dos tributos é mais transparente e menos cumulativa. No entanto, estados podem tentar compensar eventual perda de arrecadação com ajustes de alíquotas, o que precisa ser monitorado de perto pelo setor.

Dados e contexto

O cálculo “por dentro” é comum especialmente no ICMS. Em muitos estados, o imposto é calculado sobre um valor que já inclui o próprio ICMS. Na prática, se a alíquota nominal é de 18%, a alíquota efetiva sobre o preço líquido pode chegar perto de 22%, dependendo da fórmula aplicada.

Segundo o IBGE, o agronegócio responde por cerca de 24% do PIB brasileiro quando se considera toda a cadeia (primário, indústria e serviços ligados ao setor). Isso significa que qualquer alteração na base de cálculo de tributos sobre insumos e serviços usados pelo agro tem efeito macroeconômico relevante.

A OCDE aponta que o Brasil está entre os países com maior complexidade tributária. Estudo da FGV/CCiF sobre a reforma tributária mostra que a cumulatividade e a falta de transparência na formação de preços elevam o “custo Brasil” e reduzem a produtividade, especialmente em setores exportadores.

No caso de combustíveis, a Petrobras e a ANP já divulgaram em diversas ocasiões que tributos podem representar de 35% a 45% do preço final ao consumidor, a depender do estado e do produto. Uma parte disso decorre justamente da forma de cálculo do ICMS e de contribuições sobre a cadeia de produção e distribuição.

Em paralelo, a reforma tributária do consumo, aprovada pelo Congresso em 2023, caminha para substituir ICMS, ISS, PIS e Cofins por dois IVAs (federal e subnacional). A coordenação entre essa PEC que proíbe o cálculo “por dentro” e a implementação dos novos tributos será decisiva para evitar insegurança jurídica e distorções adicionais.

IndicadorValor aproximado
Participação ampliada do agro no PIB (CEPEA/USP + IBGE)~24%

| Peso de tributos em combustíveis (ANP/Petrobras) | 35%–45% do preço final | | Alíquota nominal de ICMS comum em vários estados | 17%–18% | | Alíquota efetiva com cálculo “por dentro” | ~20%–22% |

O que observar daqui pra frente

O setor rural deve acompanhar a tramitação da proposta no plenário da Câmara e no Senado, além de eventuais estudos de impacto da IFI do Senado e da Receita Federal. Se a mudança avançar, será crucial observar como estados e União vão ajustar alíquotas, como a nova regra vai conviver com a implementação do IVA e se haverá, na prática, redução do custo tributário dos principais insumos do agro.

Fontes

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