Sustentabilidade

Crédito de carbono anima o agro, mas não vira 'terceira safra'

Estudo projeta bilhões com créditos de carbono no agro, mas especialistas alertam que não será renda recorrente nem nova safra para o produtor.

08 de setembro de 2026 4 min de leitura
Crédito de carbono anima o agro, mas não vira 'terceira safra'

O agronegócio brasileiro desponta como protagonista na economia de carbono, com potencial de gerar centenas de milhões de créditos até 2035 e receitas bilionárias ao país. O movimento empurra práticas sustentáveis para dentro da porteira, mas especialistas são claros: crédito de carbono não é nova commodity agrícola nem “terceira safra” garantida para o produtor.

O que aconteceu

Um estudo da Carbonn Nature em parceria com o Instituto Equilíbrio e o Instituto de Estudos do Agronegócio (IEAg) estima que projetos de descarbonização na agropecuária podem gerar até 314,3 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em créditos entre 2025 e 2035.

O levantamento trabalha com três cenários. No mais conservador, considerando apenas iniciativas já registradas, são estimados 25,6 milhões de créditos. No cenário intermediário, que inclui projetos em estágio avançado, o número sobe para cerca de 230 milhões, chegando aos 314,3 milhões no cenário integral, que reúne todo o potencial identificado.

Especialistas ouvidos destacam, porém, que o mercado não deve ser tratado como fonte permanente de renda. A ideia de que qualquer produtor venderia carbono como se fosse mais uma safra é considerada ilusória. O crédito de carbono é visto como instrumento para financiar a transição para práticas sustentáveis, e não como receita recorrente do negócio.

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Por que importa para o agro

Para o produtor, o recado é direto: projetos de carbono podem gerar recursos adicionais e melhorar acesso a crédito, mas não substituem a rentabilidade da soja, do milho, do boi ou do café. A lógica é remunerar serviços ambientais – como redução de emissões e aumento de sequestro de carbono no solo – vinculados a mudanças de manejo, e não pagar pela produção convencional.

O avanço desse mercado também pressiona a adoção de tecnologias já recomendadas por Embrapa e MAPA, como plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta, recuperação de pastagens e adubação equilibrada. Quem estiver alinhado com boas práticas terá mais chances de acessar projetos certificados, taxas de juros menores em linhas verdes e prêmios em contratos com tradings e indústrias.

Dados e contexto

Estudos recentes indicam um potencial bilionário para o Brasil em créditos de carbono, com forte peso do agro.

IndicadorValor estimado / observação
Créditos agro 2025–2035 (cenário integral)**314,3 milhões t CO₂e**

| Cenário conservador | 25,6 milhões de créditos | | Cenário intermediário | 230 milhões de créditos | | Possível receita total (vários estudos) | até R$ 3,5 bilhões |

No campo das políticas públicas, o Plano Safra 2026/27 vem abrindo espaço para o chamado “agro verde”, com juros menores e prazos mais longos para quem comprova práticas de baixa emissão. Produtores com Cadastro Ambiental Rural (CAR) regular e que adotam tecnologias sustentáveis podem ter redução de até 1 ponto percentual na taxa de juros em algumas linhas.

A regulação ainda é desafio. O Brasil precisa consolidar regras para o mercado regulado, integrar metodologias ao artigo 6 do Acordo de Paris e avançar na “tropicalização” dos modelos de mensuração de carbono – ponto defendido por entidades do setor. A Embrapa trabalha em protocolos para medir sequestro de carbono em solos tropicais, consolidando bases técnicas para projetos robustos.

O que observar daqui pra frente

O produtor deve acompanhar três frentes: avanço da regulamentação nacional e internacional do mercado de carbono; exigências técnicas de certificadoras e compradores; e oportunidades ligadas a financiamento verde em bancos públicos e privados. Projetos bem estruturados tendem a premiar quem já adota boas práticas de manejo, mas expectativas irreais de “terceira safra” podem gerar frustração e decisões de investimento equivocadas.

Fontes

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