Governo quer renegociação focada em produtores inadimplentes
Secretário-executivo da Fazenda defende socorro direcionado a devedores do agro para evitar risco de restrição geral de crédito.
O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, defendeu que a renegociação de dívidas do agronegócio seja concentrada em produtores efetivamente inadimplentes. Para ele, um pacote amplo para todo o setor aumentaria o risco do sistema financeiro, encareceria o crédito rural e poderia reduzir a oferta de financiamento na próxima safra.
O que aconteceu
Durante entrevista ao Canal Rural, Durigan afirmou que a inadimplência no crédito rural, historicamente em torno de 2%, hoje está em cerca de 6%. O avanço reflete a quebra de safra em várias regiões, queda de preços de commodities e aumento de custos financeiros após o ciclo de alta da Selic.
Ele reforçou que o governo reconhece a situação delicada de milhares de produtores, mas defende separar quem não tem condição de pagar de quem segue adimplente. A lógica é preservar o fluxo normal de pagamento e evitar sinal ao mercado de que dívidas sempre serão renegociadas em bloco.
O secretário também indicou que ferramentas já existentes, como alongamento de dívidas com base em perdas climáticas e programas setoriais via Banco do Brasil, BNDES e bancos privados, podem ser ajustadas para atender sobretudo regiões e culturas mais afetadas.
Por que importa para o agro
Para o produtor, o desenho da renegociação vai definir quem terá fôlego para plantar e quem deve encontrar portas fechadas no banco. Um programa focado nos inadimplentes tende a aliviar o caixa de quem está em situação crítica, mas pode deixar de fora produtores com pagamento em dia e margem apertada.
Para o mercado financeiro, um socorro restrito reduz o risco de “calote generalizado incentivado”, preservando a confiança no crédito rural. Se o pacote fosse amplo, bancos poderiam reagir cortando limites ou exigindo mais garantias, afetando custeio, investimento em máquinas, armazenagem e tecnologia na próxima safra.
Dados e contexto
A inadimplência de 6% citada por Durigan está bem acima da média histórica do agro, próxima de 2%, segundo séries de crédito rural do Banco Central. Ainda assim, o índice segue abaixo de outros segmentos de crédito, o que reforça a percepção de que o setor continua relativamente sólido.
Nos últimos anos, o estoque de crédito rural no Brasil superou R$ 400 bilhões por safra, somando recursos controlados do Plano Safra, letras de crédito do agronegócio (LCA), Cédulas de Produto Rural (CPR) e operações com tradings e cooperativas. Em paralelo, a Embrapa aponta aumento de custos de produção, especialmente fertilizantes, defensivos e arrendamentos, pressionando a relação de troca.
Situações de renegociação em massa não são novidade. Nos anos 1990 e 2000, programas como Securitização e Pesa aliviaram dívidas, mas deixaram lição: estímulos recorrentes a renegociações amplas elevam a percepção de risco e encarecem o crédito no médio prazo. Hoje, o desafio é equilibrar socorro a quem realmente quebrou com a manutenção de contratos saudáveis.
O cenário externo também pesa. Relatórios recentes do USDA e da Conab mostram oferta maior em várias commodities, mantendo pressão baixista sobre preços de soja, milho e algodão. Ao mesmo tempo, a gradual queda da Selic ainda não reduziu o custo do crédito na mesma velocidade do recuo das cotações agrícolas, comprimindo margens em cadeias relevantes.
Em resposta, o governo tem sinalizado combinação de instrumentos: ajustes no Plano Safra, ampliação de garantias, uso de fundos como o FGO e eventuais linhas emergenciais para regiões de quebra de safra ou segmentos muito endividados. A definição fina das regras dirá quem será atendido e em que condições.
O que observar daqui pra frente
Produtores devem acompanhar como a Fazenda, o Ministério da Agricultura e o Conselho Monetário Nacional vão detalhar critérios de acesso à renegociação. Pontos-chave serão: exigência de comprovação de perda, limites por CPF ou CNPJ, taxas, prazos e necessidade de garantias adicionais. Para quem está com contas em dia, mas no limite, será essencial avaliar se vale buscar reestruturação preventiva com bancos e cooperativas antes de eventual aperto generalizado do crédito.
Fontes
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