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Governo quer renegociação focada em produtores inadimplentes

Secretário-executivo da Fazenda defende socorro direcionado a devedores do agro para evitar risco de restrição geral de crédito.

22 de maio de 2026 4 min de leitura
Governo quer renegociação focada em produtores inadimplentes

O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, defendeu que a renegociação de dívidas do agronegócio seja concentrada em produtores efetivamente inadimplentes. Para ele, um pacote amplo para todo o setor aumentaria o risco do sistema financeiro, encareceria o crédito rural e poderia reduzir a oferta de financiamento na próxima safra.

O que aconteceu

Durante entrevista ao Canal Rural, Durigan afirmou que a inadimplência no crédito rural, historicamente em torno de 2%, hoje está em cerca de 6%. O avanço reflete a quebra de safra em várias regiões, queda de preços de commodities e aumento de custos financeiros após o ciclo de alta da Selic.

Ele reforçou que o governo reconhece a situação delicada de milhares de produtores, mas defende separar quem não tem condição de pagar de quem segue adimplente. A lógica é preservar o fluxo normal de pagamento e evitar sinal ao mercado de que dívidas sempre serão renegociadas em bloco.

O secretário também indicou que ferramentas já existentes, como alongamento de dívidas com base em perdas climáticas e programas setoriais via Banco do Brasil, BNDES e bancos privados, podem ser ajustadas para atender sobretudo regiões e culturas mais afetadas.

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Por que importa para o agro

Para o produtor, o desenho da renegociação vai definir quem terá fôlego para plantar e quem deve encontrar portas fechadas no banco. Um programa focado nos inadimplentes tende a aliviar o caixa de quem está em situação crítica, mas pode deixar de fora produtores com pagamento em dia e margem apertada.

Para o mercado financeiro, um socorro restrito reduz o risco de “calote generalizado incentivado”, preservando a confiança no crédito rural. Se o pacote fosse amplo, bancos poderiam reagir cortando limites ou exigindo mais garantias, afetando custeio, investimento em máquinas, armazenagem e tecnologia na próxima safra.

Dados e contexto

A inadimplência de 6% citada por Durigan está bem acima da média histórica do agro, próxima de 2%, segundo séries de crédito rural do Banco Central. Ainda assim, o índice segue abaixo de outros segmentos de crédito, o que reforça a percepção de que o setor continua relativamente sólido.

Nos últimos anos, o estoque de crédito rural no Brasil superou R$ 400 bilhões por safra, somando recursos controlados do Plano Safra, letras de crédito do agronegócio (LCA), Cédulas de Produto Rural (CPR) e operações com tradings e cooperativas. Em paralelo, a Embrapa aponta aumento de custos de produção, especialmente fertilizantes, defensivos e arrendamentos, pressionando a relação de troca.

Situações de renegociação em massa não são novidade. Nos anos 1990 e 2000, programas como Securitização e Pesa aliviaram dívidas, mas deixaram lição: estímulos recorrentes a renegociações amplas elevam a percepção de risco e encarecem o crédito no médio prazo. Hoje, o desafio é equilibrar socorro a quem realmente quebrou com a manutenção de contratos saudáveis.

O cenário externo também pesa. Relatórios recentes do USDA e da Conab mostram oferta maior em várias commodities, mantendo pressão baixista sobre preços de soja, milho e algodão. Ao mesmo tempo, a gradual queda da Selic ainda não reduziu o custo do crédito na mesma velocidade do recuo das cotações agrícolas, comprimindo margens em cadeias relevantes.

Em resposta, o governo tem sinalizado combinação de instrumentos: ajustes no Plano Safra, ampliação de garantias, uso de fundos como o FGO e eventuais linhas emergenciais para regiões de quebra de safra ou segmentos muito endividados. A definição fina das regras dirá quem será atendido e em que condições.

O que observar daqui pra frente

Produtores devem acompanhar como a Fazenda, o Ministério da Agricultura e o Conselho Monetário Nacional vão detalhar critérios de acesso à renegociação. Pontos-chave serão: exigência de comprovação de perda, limites por CPF ou CNPJ, taxas, prazos e necessidade de garantias adicionais. Para quem está com contas em dia, mas no limite, será essencial avaliar se vale buscar reestruturação preventiva com bancos e cooperativas antes de eventual aperto generalizado do crédito.

Fontes

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