Sustentabilidade

Grandes mamíferos atuam como engenheiros da Mata Atlântica

Estudos mostram que antas, queixadas, catetos e veados aumentam a fertilidade do solo e são peças-chave para o equilíbrio das florestas, com efeitos diretos na produção e conservação.

04 de julho de 2026 4 min de leitura
Grandes mamíferos atuam como engenheiros da Mata Atlântica

Estudos recentes mostram que antas, queixadas, catetos e veados alteram a química do solo e a dinâmica da vegetação em florestas tropicais, especialmente na Mata Atlântica. Ao pisotear, defecar, urinar e consumir sementes, esses grandes mamíferos aumentam a disponibilidade de nutrientes, regulam a produtividade da floresta e ajudam a manter o equilíbrio entre áreas mais e menos produtivas[1][2]. Isso reforça o papel da fauna silvestre como prestadora de serviços ecossistêmicos essenciais para conservação, água e solo.

O que aconteceu

Pesquisas lideradas por grupos da Unesp e apoiadas pela Fapesp detalharam como grandes herbívoros influenciam a ciclagem de nutrientes e a estrutura das comunidades de plantas na Mata Atlântica[1][2]. Ao interagir fisicamente com o solo e a serrapilheira, esses animais reduzem a acidez, aceleram a decomposição de matéria orgânica e aumentam a fertilidade em determinados pontos da floresta[1].

Um dos estudos, publicado na revista Ecological Monographs, mostra que áreas frequentadas por antas, queixadas, catetos e veados apresentam maior disponibilidade de nutrientes e alterações claras na composição química do solo e da serrapilheira[1][4]. Outro trabalho, em Perspectives in Ecology and Conservation, destaca antas (Tapirus terrestris) e queixadas (Tayassu peccari) como espécies-chave, capazes de aumentar a produtividade em até 185% em zonas menos produtivas e reduzir em mais de 190% em áreas muito produtivas, equilibrando o mosaico de hábitats dentro da floresta[2].

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Por que importa para o agro

Para o produtor, esses resultados reforçam que a conservação da fauna não é apenas tema ambiental, mas fator direto de manejo de paisagem. Florestas bem estruturadas e com herbívoros ativos prestam serviços como proteção de solo, regulação hídrica e manutenção de polinizadores e inimigos naturais de pragas, que beneficiam áreas agrícolas vizinhas.

Em regiões com mosaico de lavouras, pastagens e remanescentes florestais, remover grandes mamíferos por caça ou fragmentação extrema tende a empobrecer o solo das matas, reduzir a diversidade de plantas e comprometer a resiliência do ecossistema[1][2]. Isso pode significar menor capacidade de suporte de água, mais erosão e maior vulnerabilidade do agro a eventos climáticos extremos, especialmente em biomas já pressionados como a Mata Atlântica.

Dados e contexto

Os estudos trazem alguns números e funções importantes:

  • Produtividade regulada: em áreas menos produtivas, antas e queixadas aumentam a produtividade em até 185%; em áreas muito produtivas, reduzem mais de 190%, equilibrando diferenças entre hábitats[2].
  • Fertilidade do solo: grandes mamíferos diminuem a acidez da terra e aceleram a decomposição da matéria orgânica, aumentando a disponibilidade de nutrientes[1].
  • Funções complementares: anta atua mais na diversidade de plantas; queixada impacta produtividade, biomassa e densidade de plântulas no sub-bosque[2].
  • Pressão de caça: justamente essas espécies de maior porte são as mais visadas, o que compromete o papel de “engenheiros de ecossistema” apontado pelos pesquisadores[1].
Aspecto ecológicoPapel de antas e queixadas
Solo e nutrientesReduzem acidez, elevam nutrientes, aceleram decomposição[1]
Estrutura da florestaRegulam diversidade, biomassa e densidade de plântulas[2]
ProdutividadeEquilibram áreas muito e pouco produtivas em até ±190%[2]

Instituições como Unesp e Fapesp vêm consolidando essa linha de pesquisa, conectando ecologia de grandes mamíferos à gestão de paisagens produtivas na Mata Atlântica[1][2]. Isso dialoga com agendas de restauração e conservação que envolvem produtores, governos estaduais e políticas federais de uso do solo.

O que observar daqui pra frente

Para o agro, a tendência é ver a fauna de grande porte integrada ao planejamento de propriedades e territórios, com foco em corredores de biodiversidade, controle da caça e manutenção de fragmentos florestais funcionais. O produtor que incorpora essa visão à gestão de reserva legal e APP tende a ganhar em estabilidade de solo, água e serviços ecossistêmicos no médio e longo prazo, reduzindo riscos de produção em ambientes cada vez mais sujeitos à variabilidade climática.

Fontes

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