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Pautas populares nas eleições elevam risco fiscal e afetam o agro, avalia Miguel Daoud

Analista vê uso eleitoral de medidas como taxa das blusinhas e alerta para impacto nas contas públicas e no agronegócio.

27 de agosto de 2026 4 min de leitura
Pautas populares nas eleições elevam risco fiscal e afetam o agro, avalia Miguel Daoud

O analista Miguel Daoud, do Canal Rural, avalia que pautas de forte apelo popular em discussão no Congresso, como a chamada taxa das blusinhas e a escala 61, têm claro uso eleitoral e podem pressionar as contas públicas. Para ele, o governo tenta agradar o eleitor em curto prazo, enquanto o setor produtivo, já fragilizado, absorve mais custos e incertezas.

O que aconteceu

Daoud aponta que medidas como a taxação de compras internacionais de baixo valor foram desenhadas para elevar a arrecadação, mas passaram a ser tratadas também como moeda política em ano de eleição. A isenção temporária e o vai e vem da chamada taxa das blusinhas criam um ambiente de instabilidade, que deve mudar novamente com a entrada em vigor da reforma tributária prevista para janeiro.

Segundo ele, a discussão da escala 61 também está contaminada pelo calendário eleitoral. O analista avalia que o governo não deve levar a proposta à votação agora, usando o tema para negociar apoio político e construir narrativa perante o eleitor, enquanto decisões estruturais seguem adiadas.

Daoud chama atenção ainda para a deterioração do ambiente econômico e das contas públicas. Ele cita casos recentes de recuperação judicial de grandes grupos empresariais como sintoma de um setor produtivo estrangulado por juros altos, crédito mais caro e carga tributária elevada, num quadro que considera de "economia doente".

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Por que importa para o agro

Para o agronegócio, Daoud vê um cenário de mais custo e menos previsibilidade. Medidas fiscais contraditórias, guiadas por cálculo eleitoral, elevam a percepção de risco, afetam o câmbio e o custo de financiamento de toda a cadeia, do insumo ao varejo. O produtor opera em ciclos longos e depende de planejamento; mudanças tributárias repentinas sobre consumo, importação e serviços atingem margens e investimentos.

Ele lembra que o agro responde por cerca de 1/4 do PIB brasileiro, segundo a Embrapa e o Cepea, e sustenta parte relevante da arrecadação de impostos. Quando políticas focam em benefícios pontuais ao consumidor e postergação de ajustes fiscais, o custo tende a recair sobre quem produz, especialmente em momentos de queda de preços agrícolas e aumento de inadimplência rural.

Dados e contexto

Indicadores recentes mostram um ambiente de pressão sobre a economia real:

  • O PIB do agronegócio brasileiro oscilou com forte queda em 2023 e recuperação parcial em 2024, conforme estimativas de Embrapa e Cepea.
  • A dívida do setor público se mantém elevada, exigindo superávits primários para estabilização, segundo o Tesouro Nacional.
  • A informalidade no mercado de trabalho ronda 40% a 50% da força de trabalho, de acordo com o IBGE, o que limita a base de arrecadação e aumenta a pressão sobre a previdência.
  • Relatórios do FMI e do Banco Mundial indicam que países com contas públicas frágeis pagam juros mais altos, encarecendo crédito para empresas e produtores.
Daoud destaca que, nesse contexto, o Congresso acelera pautas de grande visibilidade junto ao eleitor, mas posterga reformas com impacto estrutural, como consolidação fiscal e revisão de gastos obrigatórios. Ele considera que isso prolonga a incerteza sobre o sistema tributário e sobre a carga que recairá sobre o setor produtivo após a implementação completa da reforma.

O que observar daqui pra frente

Daoud sugere que produtores, cooperativas e indústrias acompanhem de perto a regulamentação da reforma tributária, o destino da taxa das blusinhas e a evolução das contas públicas. Ajustes fiscais adiados tendem a reaparecer na forma de mais impostos, menos crédito subsidiado e juros mais altos. Para o agro, a estratégia é reforçar gestão de caixa, diversificação de mercados e pressão institucional organizada sobre o Congresso, para evitar que medidas de curto prazo em ano eleitoral se transformem em custos permanentes para quem produz.

Fontes

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