Sustentabilidade

Projeto quer acelerar soluções de transição energética a partir da agricultura

Iniciativa apresentada na COP28 conecta campo, empresas e financiadores para transformar resíduos agrícolas em energia limpa e créditos de carbono.

21 de maio de 2026 4 min de leitura
Projeto quer acelerar soluções de transição energética a partir da agricultura

Uma iniciativa apresentada em paralelo à COP28 pretende destravar projetos que usam resíduos da agropecuária para gerar energia limpa e reduzir emissões. A proposta é criar uma plataforma que conecte produtores, indústria, tecnologia e financiamento, transformando dejetos animais, palhadas e subprodutos agrícolas em biogás, biometano, bioeletricidade e créditos de carbono.

O que aconteceu

Durante as discussões da COP28, em Dubai, representantes do setor privado e de organizações ligadas ao agro apresentaram um projeto voltado à transição energética baseada na agricultura. A ideia central é acelerar a implantação de soluções de baixa emissão em propriedades rurais, principalmente por meio da bioenergia e da captura de carbono em sistemas produtivos.

O programa mira a integração de diferentes elos da cadeia: produtores, empresas de alimentos e energia, desenvolvedores de tecnologia, além de bancos e fundos de investimento. O modelo prevê padronização de projetos, suporte técnico e arranjos de remuneração que permitam ao produtor aderir sem arcar sozinho com todo o investimento inicial.

Grandes companhias, como a JBS, destacaram que a parceria com o produtor é condição para escalar a descarbonização do agro. O foco está em projetos de biogás e biometano a partir de dejetos de confinamento, resíduos de frigoríficos e subprodutos da indústria de alimentos, além de práticas de agricultura de baixo carbono integradas à geração de energia renovável.

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Por que importa para o agro

Para o produtor, o projeto pode transformar passivos ambientais em receita. Dejetos animais e resíduos de lavoura passam a virar energia ou créditos de carbono, reduzindo custo com energia elétrica, gás e manejo de dejetos. Em alguns modelos, o produtor recebe também uma parcela da receita pela venda de biometano ou créditos gerados.

No mercado, a pressão por cadeias de suprimento de baixo carbono tende a se intensificar. Indústrias exportadoras de carne, grãos, açúcar e etanol já precisam comprovar redução de emissões para acessar mercados na União Europeia e outros destinos. Quem conseguir mostrar pegada de carbono menor e uso de energia renovável deve ter vantagem competitiva e acesso a financiamento mais barato.

Dados e contexto

Segundo a Embrapa, a agropecuária responde por cerca de 28% das emissões brasileiras de gases de efeito estufa, considerando principalmente fermentação entérica, manejo de dejetos e uso do solo. Uma parte relevante desse potencial pode ser mitigada com captura de metano e sistemas de produção mais eficientes.

Dados da ANP indicam que a produção de biometano no Brasil ainda é pequena frente ao potencial. Estimativas da EPE apontam que resíduos agroindustriais e urbanos poderiam gerar mais de 30 milhões de m³/dia de biometano, volume equivalente a uma fração importante do consumo nacional de gás natural.

A matriz elétrica brasileira já é majoritariamente renovável, com cerca de 87% de fontes limpas em 2023, segundo o Ministério de Minas e Energia. O desafio agora é descarbonizar transporte pesado, agroindústria e logística. Nisso, biometano, etanol e bioeletricidade a partir da cana e de outros resíduos agrícolas são peças centrais.

O Plano ABC+ do MAPA prevê reduzir em 1,1 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente até 2030 com tecnologias como ILPF, recuperação de pastagens, fixação biológica de nitrogênio e tratamento de dejetos. Projetos estruturados como o apresentado na COP28 podem funcionar como “trincheira” operacional para tirar parte dessas metas do papel, agregando a camada de transição energética.

O que observar daqui pra frente

Produtores devem acompanhar três pontos: condições de financiamento, modelos de parceria (comodato, aluguel de área, compartilhamento de receita) e critérios de medição das emissões evitadas. Projetos que entregarem redução de custos, contrato de longo prazo para compra da energia ou do biometano e rastreabilidade confiável de carbono tendem a ganhar terreno. Quem se organizar cedo tem mais chance de acessar programas piloto, linhas de crédito verdes e contratos com grandes indústrias.

Fontes

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