Sustentabilidade

Desertificação na Mongólia aperta o cerco sobre pastores nômades

Desertificação rápida e clima extremo estão destruindo pastagens na Mongólia e empurrando pastores nômades para o limite, com impactos diretos na oferta global de carne e fibras.

23 de agosto de 2026 4 min de leitura
Desertificação na Mongólia aperta o cerco sobre pastores nômades

A desertificação acelerada, a degradação das pastagens e a sequência de eventos climáticos extremos estão empurrando os pastores nômades da Mongólia para o limite, com perda de rebanhos, endividamento e migração forçada para cidades. A pressão sobre esse sistema milenar de produção de carne e fibras acende um alerta para o abastecimento de cadeias globais que dependem da pecuária extensiva em ambientes frágeis.

O que aconteceu

Relatos recentes mostram que a combinação de secas severas no verão e invernos extremamente frios, fenômeno conhecido localmente como dzud, vem se repetindo em intervalos cada vez menores nas estepes mongóis. Esses eventos climáticos extremos resultam em mortalidade elevada de animais, falta de pasto e colapso da renda das famílias nômades.

Estudos e organismos internacionais apontam que mais de 70% do território da Mongólia apresenta algum grau de desertificação ou degradação do solo, grande parte ligada ao sobrepastejo, ao aumento da temperatura média e à redução das chuvas. Em muitas áreas, a vegetação não consegue se regenerar entre um evento extremo e outro, enfraquecendo o sistema produtivo e aumentando a vulnerabilidade social.

A resposta de muitos pastores tem sido reduzir rebanhos, contrair empréstimos e, em último caso, migrar para a capital, deixando para trás a atividade e o modo de vida nômade. Esse movimento desorganiza cadeias locais de carne, leite e fibras, ao mesmo tempo em que pressiona infraestrutura urbana e serviços públicos.

Por que importa para o agro

Para o agro brasileiro, a situação na Mongólia funciona como termômetro de risco para sistemas pecuários em biomas frágeis, como Caatinga e parte do Cerrado. A combinação de sobrepastejo, manejo inadequado e aquecimento climático pode reproduzir, em escala local, o mesmo cenário de degradação, com queda de produtividade, aumento de custos e perda de resiliência das fazendas.

O caso mongol também impacta o mercado internacional. A Mongólia é fornecedora relevante de carne, lã e caxemira, insumos usados em indústrias têxtil e de alimentos. Quebras de produção e redução de rebanhos tendem a apertar a oferta, influenciar preços e reorientar fluxos de comércio. Produtores brasileiros podem encontrar oportunidades em nichos específicos, mas também enfrentar maior escrutínio sobre práticas de manejo e conservação.

Dados e contexto

Diversos levantamentos indicam uma combinação de fatores estruturais e climáticos na crise:

  • Avaliações nacionais de desertificação na Mongólia apontam mais de 70% a 77% das terras degradadas, com forte influência do sobrepastejo e de eventos climáticos extremos.
  • Organismos da ONU registram aumento da temperatura média de cerca de 2 °C desde meados do século XX, acima da média global, e queda das chuvas anuais em várias regiões.
  • O fenômeno dzud — verões quentes e secos seguidos de invernos rigorosos —, que antes ocorria uma ou duas vezes por década, passou a ser registrado com frequência muito maior, provocando mortalidade significativa de rebanhos em vários anos recentes.
  • Relatos de organizações multilaterais e bancos de desenvolvimento mostram que centenas de milhares de pastores já deixaram a atividade nas últimas décadas, migrando para centros urbanos.
Essa combinação de tendências serve de alerta para produtores em regiões semiáridas e de fronteira agrícola no Brasil. Experiências de instituições como Embrapa, Conab e IBGE reforçam que o avanço da degradação de pastagens aumenta custos com suplementação, reduz ganho de peso e compromete a capacidade de resposta da pecuária a choques climáticos.

O que observar daqui pra frente

Para o agro, o caso mongol reforça a necessidade de monitorar desertificação, degradação de pastagens e frequência de eventos extremos em áreas de pecuária extensiva. A adoção de manejo rotacionado, integração lavoura-pecuária, recuperação de pastos e diversificação de renda será decisiva para evitar cenários semelhantes, ao mesmo tempo em que produtores e mercados devem acompanhar políticas climáticas, seguros rurais e programas de apoio a sistemas pastorais em todo o mundo.

Fontes

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