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El Niño e impasse na dragagem do Tapajós acendem alerta no Arco Norte

Super El Niño e falta de dragagem no Tapajós ameaçam escoamento de soja e milho pelo Arco Norte às vésperas da nova safra.

19 de agosto de 2026 4 min de leitura
El Niño e impasse na dragagem do Tapajós acendem alerta no Arco Norte

O corredor do Arco Norte, peça central no escoamento de soja e milho do Centro-Oeste, entra na nova safra sob risco de gargalo. A combinação de Super El Niño, estiagem prevista na Amazônia e impasse político sobre a dragagem do rio Tapajós pode reduzir a navegabilidade entre Miritituba e Santarém, atrasar embarques e elevar o custo do frete para milhares de produtores.

O que aconteceu

O governo federal discutiu um plano emergencial de dragagem no Tapajós, focado em trechos críticos entre Miritituba e Santarém, para remover bancos de areia e manter calado mínimo nas hidrovias do Arco Norte. A proposta reduzia a intervenção para menos de 2% da extensão navegável, com retirada em torno de 1 milhão de m³ de sedimentos em cerca de 90 a 100 dias.

Pressões de ministérios ligados à infraestrutura, do setor privado e de operadores de terminais em Miritituba apontavam risco de interrupção parcial ou total do transporte de grãos na estiagem associada ao El Niño. A estimativa oficial era de que, sem dragagem, a navegação poderia ficar parada por 3 a 4 meses, com impacto direto no escoamento da safra de soja e milho via Arco Norte.

Ao mesmo tempo, órgãos ligados a povos indígenas e comunidades ribeirinhas questionaram o projeto, alegando impactos socioambientais e pedindo mais estudos. O impasse travou a decisão final sobre a dragagem às vésperas do período crítico de estiagem, comprimindo a janela de obras e aumentando a incerteza logística para a safra 2024/25.

Por que importa para o agro

O Arco Norte já responde por uma fatia relevante da exportação de grãos brasileiros, com forte participação do Mato Grosso, que depende do eixo rodovia BR-163 + barcaças no Tapajós para acessar portos do Norte. Qualquer restrição no rio força o desvio de cargas para rotas mais longas e caras, como Santos e Paranaguá, pressionando a base de preço recebida pelo produtor.

Estimativas de governo e setor privado indicam que a menor navegabilidade pode comprometer entre 3,1 milhões e 5 milhões de toneladas de grãos, com prejuízos na casa de R$ 510 milhões a R$ 850 milhões, somando atrasos, sobretaxa de frete e perda de competitividade. Em anos de margens apertadas, um acréscimo de R$ 150 a R$ 250 por tonelada no frete pode virar a diferença entre lucro e prejuízo para muitos agricultores.

Dados e contexto

Estudos da Conab e do USDA mostram crescimento contínuo da participação do Arco Norte nas exportações de soja e milho, puxado pela expansão de área no Centro-Oeste e investimentos em terminais fluviais e portos na região Norte.

A estiagem em rios amazônicos não é nova, mas o padrão recente tem sido mais intenso, associado a eventos de El Niño mais fortes, que reduzem os níveis de rios estratégicos como Madeira, Tapajós e Amazonas. Relatórios da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) e do MAPA reforçam que a dragagem de manutenção virou condição básica para manter o fluxo de barcaças em anos secos.

Abaixo, um resumo dos principais números em discussão para o Tapajós:

IndicadorValor estimado
Toneladas de grãos em risco3,1 a 5 milhões
Prejuízo potencialR$ 510 milhões a R$ 850 milhões
Aumento de freteR$ 150 a R$ 250 por tonelada
Sedimentos a remover~1 milhão de m³
Trechos afetados7 pontos entre Miritituba e Santarém

Segundo o IBGE, a produção de grãos do Brasil segue concentrada no Centro-Oeste, reforçando a dependência de corredores como o Arco Norte para manter competitividade externa. Sem previsibilidade logística, contratos de exportação ficam mais arriscados e traders tendem a reprecificar originando em outras regiões ou rotas.

O que observar daqui pra frente

Produtores, cooperativas e tradings devem acompanhar de perto qualquer decisão sobre a dragagem do Tapajós, bem como os boletins climáticos de El Niño e projeções de nível de rios na Amazônia. Em cenário de atraso ou cancelamento das obras, a recomendação prática é revisar contratos de entrega, checar alternativas de rota e frete e considerar estratégias comerciais que reduzam exposição a janelas de pico de escoamento, já que a disputa por logística pode encarecer o transporte no auge da safra.

Fontes

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