Sustentabilidade

Do arroto do boi ao crédito verde: como a pecuária pode cortar metano

Relatório aponta pacote de medidas para reduzir metano na pecuária brasileira, do manejo de rebanhos ao crédito para recuperação de pastagens.

19 de agosto de 2026 4 min de leitura
Do arroto do boi ao crédito verde: como a pecuária pode cortar metano

Um novo pacote de propostas para reduzir emissões de metano na pecuária brasileira concentra esforços na chamada fermentação entérica, o “arroto do boi”, responsável por cerca de 90% do metano da agropecuária. O plano combina tecnologias de nutrição, melhoramento genético, manejo de pastagens e acesso a crédito verde para acelerar a adoção dessas práticas em escala.

O que aconteceu

O estudo, divulgado por entidades ligadas à agenda climática e ao agro, lista medidas técnicas e econômicas para reduzir o metano gerado pelos bovinos, da fazenda ao frigorífico. A prioridade é aumentar a eficiência por animal e por hectare, encurtar o ciclo de produção e recuperar áreas de pastagens degradadas.

Entre as propostas estão o uso de aditivos alimentares que reduzem o metano entérico, seleção genética para animais mais eficientes, ajuste fino da dieta, redução da idade ao abate e expansão de sistemas integrados como ILP e ILPF. O pacote também defende políticas públicas e linhas de financiamento específicas para recuperação de pastagens e pecuária de baixa emissão.

Por que importa para o agro

Para o produtor, o foco em metano não é apenas tema ambiental: está ligado à rentabilidade por cabeça. Animais que ganham peso mais rápido, com dieta balanceada e pasto bem manejado, ficam menos tempo no sistema, consomem menos recursos e emitem menos metano por quilo de carne produzida. Isso melhora o custo por arroba e reduz riscos de sanções em mercados exigentes.

No mercado, compradores, frigoríficos e bancos começam a exigir comprovação de práticas de baixa emissão. Plataformas de crédito rural e de carbono tendem a direcionar recursos para projetos com recuperação de pastagens, intensificação sustentável e monitoramento de emissões. Quem se adapta mais cedo tende a ter acesso a juros menores, contratos de longo prazo e programas de bonificação.

Dados e contexto

Metano é um gás de efeito estufa com potencial de aquecimento mais de 25 vezes superior ao CO₂ em períodos de 100 anos, segundo o IPCC. Na agropecuária brasileira, a fermentação entérica responde pela maior parte das emissões de metano, à frente do manejo de dejetos.

Principais linhas de ação citadas por planos oficiais e estudos recentes:

  • Recuperação de pastagens degradadas, alinhada ao Plano ABC+, que prevê milhões de hectares em restauração até 2030.
  • Adoção de integração lavoura-pecuária e sistemas silvipastoris, capazes de aumentar lotação, produtividade e sequestro de carbono por hectare.
  • Redução da idade ao abate para faixas entre 24 e 30 meses, com genética e nutrição que aceleram o ganho de peso.
  • Uso de aditivos que podem reduzir o metano entérico em 15% a 30%, dependendo do produto e do sistema.
  • Manejo de pastagens com pastejo rotacionado, taxa de lotação ajustada e adubação planejada.
Instituições como Embrapa e o MAPA já trabalham com protocolos de baixa emissão, enquanto o Plano Setorial de Mitigação da Agricultura e Pecuária do governo federal reforça metas para intensificação sustentável e recuperação de pastos. Bancos e agfintechs vêm testando linhas de crédito específicas para conversão e modernização de pastagens, conectando investimento produtivo e metas climáticas.

Uma tendência é a combinação de medição de emissões em campo com programas de crédito de carbono, em que o produtor comprova redução de metano e aumento de estoque de carbono no solo para gerar receita adicional. Projetos de agricultura e pecuária regenerativa, com foco em solo e pastagens, já começam a emitir créditos lastreados em práticas como ILP e plantio direto.

O que observar daqui pra frente

Produtores devem acompanhar a evolução de linhas de crédito verde, programas públicos de incentivo e exigências de compradores em relação a metano e rastreabilidade. A adoção de aditivos, genética mais eficiente e recuperação de pastagens tende a ser cada vez mais condicionada a dados de desempenho e emissões. Quem conseguir combinar aumento de produtividade, comprovação técnica e acesso a financiamento terá vantagem em contratos de exportação, certificações ESG e programas de carbono na próxima década.

Fontes

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