Sustentabilidade

EUA travam debate sobre gênero e participação social na COP17 da Desertificação

Decisão dos Estados Unidos trava temas sociais na COP17 e levanta alerta para impactos em políticas de terra e combate à seca no agro.

25 de agosto de 2026 4 min de leitura
EUA travam debate sobre gênero e participação social na COP17 da Desertificação

A abertura da COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), em Ulaanbaatar, na Mongólia, ficou marcada pelo veto dos Estados Unidos a pontos da agenda ligados a igualdade de gênero, participação de comunidades locais e povos indígenas, e sinergias entre clima, biodiversidade e desertificação. Essas pautas foram retiradas ou postergadas, gerando reação imediata de organizações da sociedade civil e colocando em dúvida a ambição social das negociações.

O que aconteceu

Na aprovação inicial da agenda, a delegação dos EUA se opôs à inclusão de itens que tratavam de gênero, participação da sociedade civil e articulação entre as chamadas Convenções do Rio (clima, biodiversidade e desertificação). Com apoio da Rússia em outros pontos, o movimento obrigou a presidência da COP17 a adotar uma agenda provisória, deixando temas sociais em consulta paralela.

Organizações de povos indígenas, mulheres, jovens e comunidades locais denunciaram que a conferência está priorizando aspectos técnicos e econômicos da desertificação, como manejo de terras e projetos de restauração, enquanto reduz espaço para discutir quem é mais afetado pela seca e pela degradação dos solos. Painéis paralelos passaram a tratar de gênero e participação como "agenda bloqueada".

Relatos de negociadores e especialistas indicam que não haverá decisões formais sobre esses temas se o impasse se mantiver. O risco é que o marco estratégico pós-2030 da UNCCD seja desenhado com pouca referência a direitos, equidade de gênero e mecanismos de participação, apesar da pressão de países como Brasil e União Europeia para manter tais itens na pauta.

Por que importa para o agro

A retirada ou atraso desses debates afeta diretamente como futuros programas de combate à desertificação, seca e degradação de terras serão desenhados e financiados. Sem diretrizes claras sobre participação social e gênero, políticas podem seguir concentradas em grandes projetos, com menor foco em agricultores familiares, mulheres rurais e comunidades tradicionais, que ocupam áreas mais vulneráveis à perda de produtividade.

Para o agronegócio brasileiro, o rumo da COP17 importa porque influencia critérios de acesso a recursos internacionais, fundos climáticos e cooperação técnica voltados a restauração de pastagens, manejo de solos e adaptação à seca. Caso temas sociais fiquem enfraquecidos, cresce o risco de políticas desenhadas de cima para baixo, com menor aderência às realidades regionais do Semiárido, Cerrado e fronteira agrícola.

Dados e contexto

  • A UNCCD reúne hoje 197 partes e define linhas gerais para políticas de uso sustentável da terra, combate à desertificação e gestão da seca.
  • Segundo a ONU, cerca de 40% das terras do planeta já apresentam algum grau de degradação, afetando diretamente milhões de produtores rurais.
  • No Brasil, dados da Embrapa e do MAPA apontam degradação significativa em pastagens, com impacto direto na lotação animal, custos de recuperação e emissões de carbono.
  • A retirada de gênero e participação da agenda contrasta com planos de ação já existentes em outras convenções, como o Gender Plan of Action da Convenção da Biodiversidade, voltado à implementação do Marco Global de Biodiversidade.
  • Organizações da sociedade civil relatam que os EUA rejeitaram os itens "sob sua premissa", afirmando que nenhum grau de negociação traria consenso, o que travou os pontos de forma estrutural.
Esse cenário ocorre enquanto países buscam fortalecer a integração entre clima, biodiversidade e uso da terra, defesa recorrente de pesquisadores do CIRAD e de coletivos de mulheres e povos indígenas. A fragmentação das agendas reduz eficiência de investimentos e pode gerar sobreposição de programas, com menor impacto real no campo.

O que observar daqui pra frente

Produtores e lideranças do agro devem acompanhar se a COP17 conseguirá reincorporar gênero, participação social e sinergia entre convenções na agenda oficial ainda durante a conferência. Se o veto americano prevalecer, novas decisões sobre restauração de terras, combate à seca e financiamento internacional podem sair com foco estreito em indicadores técnicos, abrindo espaço para políticas pouco alinhadas à realidade de quem produz em áreas vulneráveis e reduzindo oportunidades de programas mais inclusivos e territorialmente ajustados.

Fontes

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