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Galípolo vê juros altos por mais tempo mesmo com inflação acima da meta

Presidente do BC indica manutenção de juros em patamar restritivo por período prolongado, com inflação projetada acima da meta até 2028.

19 de maio de 2026 4 min de leitura
Galípolo vê juros altos por mais tempo mesmo com inflação acima da meta

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que os juros devem permanecer em patamar restritivo por período prolongado, mesmo com a inflação projetada acima da meta de 3% até 2028. A mensagem reforça que o BC está disposto a manter a Selic elevada para tentar ancorar expectativas, o que afeta diretamente crédito, investimentos e custo financeiro em toda a economia, inclusive no agronegócio.

O que aconteceu

Em evento na Fundação Fernando Henrique Cardoso, em São Paulo, Galípolo destacou que a dispersão da inflação vem caindo depois de atingir nível alto em abril, mas esse alívio está concentrado nos preços de bens. A inflação de serviços segue em patamar considerado incompatível com a meta perseguida pelo Banco Central.

Segundo o presidente do BC, o Relatório Focus segue apontando inflação acima da meta até 2028, o que classificou como um sinal “incômodo” para a autoridade monetária. O BC mira o centro da meta de 3%, com banda de tolerância de 1,5 ponto percentual apenas para absorver choques, e não como objetivo de política.

Galípolo indicou que, diante desse cenário, o Comitê de Política Monetária (Copom) tende a manter a Selic em nível restritivo por mais tempo para garantir a convergência da inflação. Na última decisão, o Copom manteve a taxa básica em 15% ao ano, após já sinalizar uma fase de juros inalterados por um período longo para assegurar o cumprimento da meta.

Por que importa para o agro

Juros altos por mais tempo significam crédito mais caro para o produtor rural, cooperativas e agroindústrias. Linhas atreladas à Selic ou com custo de mercado ficam menos acessíveis, limitando capital de giro, compra de insumos e investimentos em máquinas, armazenagem, irrigação e tecnologia.

Ao mesmo tempo, a inflação acima da meta por vários anos tende a pressionar custos de produção, especialmente em serviços logísticos, fretes, mão de obra e manutenção. O agro passa a operar num ambiente em que o custo financeiro sobe, enquanto margens dependem ainda mais de produtividade, gestão de risco e travas de preços na Bolsa e nos mercados futuros.

Dados e contexto

O Brasil opera hoje com uma das maiores taxas de juros reais do mundo, combinação de Selic elevada e inflação ainda resiliente. Em paralelo, indicadores oficiais apontam inflação teimosa em serviços e difusão ainda acima do desejado pelo BC.

Alguns números recentes ajudam a situar o cenário:

  • Selic: 15% ao ano, mantida no último Copom em patamar considerado contracionista.
  • Meta de inflação: 3% ao ano, com banda de 1,5 p.p. para cima ou para baixo, definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
  • IPCA: indicador oficial do IBGE, com variação anual recente circulando próxima ao teto da banda, sinalizando pressão de preços disseminada.
  • Focus: projeta IPCA acima de 3% até 2028, indicando dificuldade de convergência plena ao centro da meta.
A Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado já vem alertando que inflação e juros altos devem seguir pressionando a atividade econômica e as contas públicas nos próximos anos. Para o agro, isso significa custo de rolagem de dívidas elevado e maior seletividade dos bancos na concessão de crédito.

No crédito rural, programas com recursos controlados e taxas subsidiadas ajudam a aliviar parte do peso, mas a parcela com recursos livres e operações de mercado de capitais (CRA, CPR financeira, debêntures) continua diretamente exposta ao nível da Selic e dos prêmios de risco.

O que observar daqui pra frente

Produtores e empresas do agro devem acompanhar de perto as próximas atas do Copom, o comportamento do IPCA, da inflação de serviços e das expectativas no Relatório Focus. Um quadro prolongado de juros altos exige atenção redobrada ao endividamento, renegociação de passivos quando possível e planejamento financeiro mais conservador, buscando alongar prazos, travar taxas quando fizer sentido e aproveitar janelas de preços favoráveis para proteger margens.

Fontes

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