Mercado

Logística e produção de milho expõem gargalos no Sul do Brasil

Déficit de milho no Sul e frete caro elevam custos da proteína animal e pressionam a competitividade da cadeia.

01 de setembro de 2026 4 min de leitura
Logística e produção de milho expõem gargalos no Sul do Brasil

O Brasil amplia a produção de milho, mas enfrenta gargalos na oferta e no transporte do grão, especialmente na região Sul, onde o cereal é base da cadeia de aves e suínos. O desequilíbrio entre consumo e produção local, o frete caro e a falta de motoristas encarecem a ração e pressionam a competitividade da proteína animal brasileira.

O que aconteceu

Em debate recente, lideranças do setor destacaram que o país avança em produtividade e área plantada de milho, mas não resolve o problema de abastecimento em regiões altamente consumidoras. O caso mais emblemático é o de Santa Catarina, estado forte em suinocultura e avicultura, mas com baixa autossuficiência em grãos.

Santa Catarina consome cerca de 8,5 milhões de toneladas de milho por ano e produz pouco mais de 2 milhões, gerando um déficit próximo de 6 milhões de toneladas, que precisa ser coberto com milho de outros estados e de países vizinhos. Esse volume se desloca principalmente por rodovias, em longas distâncias, o que aumenta o custo logístico e a dependência de frete rodoviário.

O transporte do milho pode representar de 20% a 30% do valor final do grão para a indústria, comprimindo margens de frigoríficos e cooperativas. Outro ponto sensível é a falta de motoristas: a idade média dos profissionais gira em torno de 56 anos, com pouca renovação entre os jovens, o que deixa parte da frota parada e eleva o preço do frete em períodos de pico.

Imagem

Por que importa para o agro

Para o produtor de milho, os gargalos logísticos significam volatilidade maior de preços e dificuldade de planejamento. Em momentos de safra cheia, a limitação de transporte e armazenagem pode derrubar cotações em regiões produtoras, enquanto o consumidor do Sul paga mais caro pelo mesmo grão, apenas por causa do custo de deslocamento.

Para a cadeia de proteína animal, o impacto é direto no custo da ração, que responde por mais de 60% do custo de produção em aves e suínos, segundo dados recorrentes de Embrapa Suínos e Aves. Frete caro e oferta incerta de milho reduzem competitividade no mercado externo, em um momento em que Brasil disputa espaço com Estados Unidos e União Europeia em carne de frango e suína.

Dados e contexto

Conab e USDA têm apontado produções brasileiras de milho acima de 120 milhões de toneladas nas últimas safras, consolidando o país entre os maiores exportadores globais. Ainda assim, a oferta é mal distribuída entre regiões, e o problema é menos de volume e mais de logística e localização do grão.

No Sul, o déficit estrutural de milho obriga estados como Santa Catarina e Paraná a buscarem produto no Centro-Oeste e, em alguns anos, no Paraguai. Essa dependência externa expõe o setor a variações cambiais, tarifas e condições de fronteira.

A falta de infraestrutura adequada se soma a um quadro de armazenagem insuficiente. Estudos recentes indicam déficit de mais de 100 milhões de toneladas na capacidade estática de armazenagem de grãos no Brasil, cenário que obriga produtores a vender rapidamente após a colheita ou estocar a céu aberto, com risco de perdas.

Enquanto isso, rodovias sobrecarregadas e sem manutenção adequada seguem como principal via de escoamento. BRs estratégicas para o fluxo de grãos, como a 163 e a 282, são recorrentes em relatos de congestionamento, buracos e atrasos. A ausência ou insuficiência de ferrovias e hidrovias agrava o custo logístico em longas distâncias.

IndicadorValor aproximado

| Consumo anual de milho em SC | 8,5 mi t | | Produção anual de milho em SC | 2 mi t | | Déficit de milho em SC | 6 mi t | | Peso do frete no valor do grão | 20% a 30% | | Idade média dos motoristas | 56 anos |

O que observar daqui pra frente

Produtores e indústrias devem acompanhar de perto investimentos em infraestrutura, programas de estímulo à armazenagem nas fazendas, políticas de renovação da frota de caminhoneiros e eventuais incentivos ao plantio de milho em áreas de integração lavoura-pecuária no Sul. A capacidade do país de reduzir o custo logístico e garantir oferta regular de milho nas regiões consumidoras será decisiva para manter margens da proteína animal e a competitividade do agro brasileiro no mercado global.

Fontes

Compartilhar:

Continue lendo