Miguel Daoud alerta para trio de risco ao agro: Europa, Trump e crédito caro
Analista aponta que pressão europeia, possível volta de Trump e juros altos formam combinação perigosa para a renda do produtor brasileiro.

Miguel Daoud avalia que o agronegócio brasileiro entrou em uma fase de maior vulnerabilidade, pressionado por três frentes: novas exigências ambientais e sanitárias da Europa, a possibilidade de retorno de Donald Trump à Casa Branca com agenda protecionista e o custo elevado do crédito rural no Brasil. O analista vê risco direto à competitividade das exportações e à renda do produtor.
O que aconteceu
Em comentário recente, Daoud afirmou que o agro brasileiro perdeu parte da "rede de proteção" construída em anos de bonança, enquanto o cenário externo ficou mais hostil.[2] Para ele, o país segue como potência exportadora, mas com menos fôlego fiscal, juros altos e maior exposição a choques internacionais.[2]
O analista aponta que a Europa vem aumentando barreiras regulatórias ligadas a rastreabilidade, desmatamento e padrões ambientais, o que tende a encarecer e travar negócios de soja, carne e outros produtos. Em paralelo, a eventual volta de Trump traria risco de novas tarifas e medidas protecionistas sobre países emergentes, inclusive o Brasil, num ambiente global já marcado por disputas comerciais.[1][3]
No front interno, Daoud destaca que o crédito ficou mais caro e seletivo, reduzindo a capacidade de investimento de produtores médios e pequenos. Sem apoio robusto do Tesouro e com bancos mais cautelosos, a liquidez no campo diminui, elevando o risco de quebra em ciclos de preços baixos.[2]
Por que importa para o agro
Para o produtor, o combo Europa–Trump–crédito caro significa margens mais apertadas, maior volatilidade e menos espaço para erro. Exigências adicionais dos importadores podem exigir investimentos em tecnologia, certificações e adequação ambiental, ao mesmo tempo em que o financiamento fica mais restrito.
No mercado, a percepção de risco pode afetar câmbio, prêmios de exportação e planejamento de safras. Em um setor em que o Brasil responde por cerca de 50% das exportações globais de soja e mais de 20% da carne bovina mundial, qualquer mudança em acesso a mercados-chave e custo financeiro tem impacto imediato na formação de preços internos.[2]
Dados e contexto
- O agro respondeu por cerca de 23% do PIB brasileiro em 2023, somando cadeia primária e industrial, segundo estimativas do Cepea/Esalq e CNA.
- A União Europeia é um dos principais destinos de carnes e produtos de maior valor agregado do Brasil; mudanças em regras de desmatamento e rastreabilidade afetam diretamente esses embarques.
- O Brasil figura entre os maiores recebedores de tarifas e medidas antidumping em disputas comerciais dos últimos anos, de acordo com relatórios da OMC.
- Mesmo com o início do ciclo de queda da Selic, o custo do crédito rural permanece elevado quando somados juros, risco e spreads bancários, especialmente para quem está fora do Pronaf e de linhas subsidiadas.
- A Conab projeta safra acima de 300 milhões de toneladas de grãos em cenários de normalidade climática, o que exige infraestrutura, financiamento e mercados externos estáveis para escoamento.
| Fator de risco | Impacto principal no agro |
|---|---|
| Exigências da Europa | Mais custo com adequação ambiental, risco de perda de mercado |
| Possível volta de Trump | Aumento de protecionismo e imprevisibilidade comercial |
| Crédito caro no Brasil | Menos investimento, maior risco financeiro ao produtor |
O que observar daqui pra frente
Produtores e empresas devem acompanhar a implementação das regras europeias de desmatamento, o desenrolar das eleições nos Estados Unidos e a política de crédito rural do governo brasileiro, incluindo volume de recursos equalizados e taxas finais ao produtor. A capacidade de adaptação em sustentabilidade, gestão de risco e acesso a financiamento competitivo será decisiva para manter renda e participação do Brasil nos mercados globais.
Fontes
Continue lendo

EUA reduzem vendas semanais de milho da safra 2025/26 para 315 mil t
USDA aponta queda nas vendas externas de milho 2025/26 dos EUA para 315 mil toneladas em uma semana, sinalizando menor ritmo de demanda no curto prazo.

Cepea: suíno vivo integrado supera independente em julho
Em julho, remuneração do suíno vivo integrado ficou acima do mercado independente, segundo Cepea, acendendo alerta para produtores sobre margem e modelo de negócio.

Demanda aquecida mantém soja valorizada no Brasil e em Chicago
Procura forte e oferta limitada seguram preços da soja no Brasil, mesmo com dólar mais fraco, apoiados pela alta em Chicago e prêmios firmes.