Cade julga compra da CRDC pela B3 e acende alerta no mercado de registros de crédito
Tribunal do Cade decide sobre aquisição de 60% da CRDC pela B3, operação que pode concentrar ainda mais o mercado de registro de direitos creditórios, relevante para o financiamento do agro.

A B3, bolsa de valores brasileira, tenta consolidar o controle sobre a Central de Registro de Direitos Creditórios (CRDC) ao adquirir 60% da companhia, hoje ligada à Associação Comercial de São Paulo (ACSP). A operação está sob julgamento do Tribunal do Cade, depois de a área técnica recomendar reprovação por risco de concentração em um mercado estratégico para o crédito, inclusive o rural.
O que aconteceu
A B3 assinou acordo para comprar 60% do capital da CRDC por cerca de R$ 15 milhões, com opção de adquirir os 40% restantes após o cumprimento de metas. A CRDC atua em tecnologia e infraestrutura de registro de direitos creditórios, como duplicatas e recebíveis, segmento em que a B3 já é dominante.
A Superintendência-Geral do Cade (SG/Cade) classificou o caso como "complexo" e encaminhou o processo ao Tribunal com recomendação de rejeitar a operação e o acordo comercial entre B3, CRDC e ACSP. O parecer aponta risco de criação de vantagens competitivas "inorgânicas" e aumento da concentração em um mercado ainda em consolidação.
Hoje, a B3 já detém cerca de 93% do mercado de registro de duplicatas e poderia chegar a 95% com a incorporação da CRDC. A SG/Cade vê risco de redução da rivalidade, práticas como venda casada, empacotamento de serviços e subsídios cruzados, que podem reforçar o poder da B3 sobre credores e agentes financeiros.
Por que importa para o agro
Registros de direitos creditórios são a base da estruturação de diversos instrumentos de crédito rural, como CPRs, duplicatas de insumos, recebíveis de cooperativas e tradings. Quanto mais concentrado o mercado de registro, maior o risco de custo adicional e dependência de uma única infraestrutura para produtores, revendas e agroindústrias.
Se a compra for aprovada sem restrições, a B3 poderá integrar registros de recebíveis, mercado de capitais e derivativos em uma mesma plataforma, o que aumenta eficiência, mas também pode criar barreiras à entrada de concorrentes que ofereçam soluções mais baratas ou adaptadas ao agro. O Cade discute justamente esse equilíbrio entre ganho de escala e preservação da concorrência.
Dados e contexto
A operação foi notificada em 2025 e depende de aval do Cade para ser concluída. A decisão final pode ser pela aprovação, reprovação ou aprovação com remédios concorrenciais.
Principais pontos da análise:
- B3 já controla 93% do mercado de registro de duplicatas, podendo ir a 95% com a CRDC.
- A SG/Cade recomenda bloquear a transação, por medo de concentração e redução da rivalidade.
- O Tribunal do Cade ampliou o prazo de análise, reconhecendo a complexidade do caso.
- Há participação de ao menos um terceiro interessado (como CERC), fornecendo dados para o processo.
| Fator em análise | Situação na operação B3–CRDC |
|---|---|
| Participação da B3 em registros de duplicatas | Cerca de **93%**, podendo chegar a 95% |
| Tipo de operação | Compra de 60% da CRDC, com opção sobre 40% restantes |
| Posição da área técnica do Cade | Recomenda **reprovação** da operação |
| Próxima etapa | Julgamento pelo Tribunal do Cade |
Para o agro, os efeitos se somam a mudanças já em curso na regulação de garantias e recebíveis, acompanhadas por Banco Central, MAPA e mercado financeiro, em linha com a expansão de instrumentos como CPRs e Fiagros.
O que observar daqui pra frente
Produtores, cooperativas e empresas de insumos devem acompanhar o desfecho no Cade e eventuais condicionantes à operação, como exigência de venda de ativos, limites a práticas comerciais ou obrigações de transparência de tarifas. A decisão pode definir se o mercado de registros de direitos creditórios seguirá mais concentrado ou aberto à competição, impactando custo e acesso ao crédito para toda a cadeia do agronegócio.
Fontes
- Canal Rural – Cade julga compra de 60% da CRDC pela B3
- Cade – Superintendência-Geral recomenda reprovação da compra da CRDC pela B3
- Valor Econômico – Área técnica do Cade recomenda reprovação da compra da CRDC pela B3
- CNN Brasil – Superintendência do Cade sugere rejeição da compra de 60% da CRDC pela B3
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